Hamlet

Amnésia, a vida antes de Hamlet

 

Com direção de Chlóe Zhao, escrita por Maggie O’farrell que assina também a coautoria do roteiro do filme que estreou nesta sexta-feira (16/01) nos cinemas brasileiros levou-me a destravar todos os silêncios num pranto imparável e irrepavelmente perceptivo. Ler uma obra universal a exemplo desta peça de Shakespeare é uma experiência sem volta na formação de nossa psiquê e sensibilidade artística. Mesmo sem saber ainda um só aspecto da vida do dramaturgo, o inesgotável bardo inglês. Seguir nesta funda catarse sem pistas como da primeira vez – e tive a sorte de experimentar uma edição comentada com capa dura e letras douradas da prateleira na casa de meus pais, publicada pela Abril Cultural. Li imersa no universo da vida simples no campo e da conexão com a natureza experimentada pela própria Anne Hathaway – como não lembrar da atriz homônima – neste filme dilacerador pela Jessica Buckley que está nada mesmo que arrebatadora em sua interpretação em toda, absolutamente todo as as cenas. De modo que toda a emoção contida pelas inúmeras vezes que voltei à leitura da peça desconhecendo o princípio ou o argumento escolhido por suas realizadoras. Meu choro revelava mais que toda a busca insana de não compreender de todo a obra explodindo nesta fusão de compreensão e apreensão silenciosa da motivação do autor. Assisti ao lado de uma amiga psicanalista que confessou ter interpretado a peça e reproduzido suas frases em ocasiões determinantes para a escolha da profissão. E este gesto de repetir as fras de uma obra de arte como Hamlet, à exaustão, é um sintoma de nossa humanidade limitada à percepção deste lugar metafísico e tão misteriosamente inalienável de nossos subsolos que rejeitamos querer saber mais sobre. Sem que o significante precise estar atado invariável a seu fundo significado tive a sensação de que o filme se interpõe como divisor de águas. De maneira a insustentável correnteza que saía de meus canais lacrimais se tornou prova de uma travessia. Todo o impasse vivido pelo príncipe me entregava não apenas a verdade sobre as circunstâncias humanas – e não somente no Reino da Dinamarca – como o que há de mais impuro sobre os homens em qualquer outro lugar do planeta. O que há de magnitude nesta composição que extrai do materia de vida do artista a linha condutora da recriação é a peça fundamental de outro quebra-cabeça: o alerta para nossa mais grave falha humana. A incapacidade de querer ver. Dito tudo isso, não há nada que meu espírito desejasse mais do que chegar a Hamnet – a ida antes de Hamlet e experimentar o preenchimento de todas as lacunas reprimidas talvez por séculos! Em conturbadas memórias que se somaram às minhas perdas e me trouxeram de volta a este espaço. Não sabendo o que fazer com tamanha carga emocional entregue por este elenco que incluiu o garoto Jacobi Jupe e o irmão Noah Jupe (e vice-versa), além de Emily Watson no papel da mãe de Will, escrevo de modo incessante numa dupla, talvez tripla, compreensão da grandeza do espírito destas obras que se entrecruzam. Sempre que a morte se interpor, a vida fará da arte um caminho de recomposição, respostas. Ou mais que isso: transfiguração. Como somos insignificantes e quão é vão nossa busca de sentido com as palavras até lermos Hamlet ou Hamnet – a vida antes… Espero que o impulso que trouxe aqui e que jamais repousa a exemplo das garras de um falcão na luva de couro chegue até os corações abertos. Nada que a história nos enteega em tom de doce e fina ironia nos escape. Sobretudo no confronto com obras assim.

Geórgia.alves1

35070cookie-checkHamlet

Deixe comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos necessários são marcados com *.